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Deixo-me falar com o coração


Por Edneide Arruda


Neste momento, de forte calor no Cerrado, sinto frio. Uma imensa tristeza me abate e torna sem graça tudo que vejo. O falecimento da jornalista Fátima Alves, ocorrido na última quarta-feira, em Porto Velho(RO), vitimada de um câncer, fere-me de morte. Perco uma irmã-companheira e uma parceira de lutas e de sonhos. E não é tão fácil. Conheci Fátima Alves no vigor de nossas juventudes, no início da década de 80 (1980). Éramos duas jovens sonhadoras, livres e estudiosas, que, oriundas do sertão da Paraíba, fazíamos o mesmo curso - Comunicação Social -, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e descobríamos o mundo.

Moramos juntas, por seis anos, na Residência Universitária Feminina de João Pessoa(PB), moradia estudantil onde conviviam cerca de 200 pessoas, todas vindas do interior do Estado. Corpo sempre, aparentemente frágil, mas mulher de uma coragem impressionante, Fátima Alves ou ‘Fatinha’, como a chamávamos, logo conquistou a atenção e o carinho de todas nós, jovens garotas que caminhavam “contra o vento, sem lenço, sem documento”, em busca de nossas verdades, sonhos, ideologias.

Neste caminhar, vivemos aventuras, próprias desta fase da vida. Era um tempo de regime ditatorial no país, e o movimento estudantil efervescente daquele momento, engrossava a luta pela redemocratização. Vieram as fervorosas manifestações pelas Diretas Já, colorindo as praças e avenidas do nosso país, e lá estávamos nós, verdes na política, mas empunhando as bandeira de liberdades e democracia.

Com sua serenidade, Fátima Alves foi escolhida por nós, presidente da diretoria da Residência Universitária Feminina da Paraíba, pois a víamos como uma pessoa capaz de ser a nossa voz, suave e firme, para reivindicar nossos pleitos junto à Reitoria da UFPB.

Como dirigente da Residência Universitária, Fátima Alves negociou demandas e assumiu com determinação um projeto de visibilidade daquele espaço juvenil, até então, discriminado e jogado às traças, pelos administradores da coisa pública, no âmbito da educação superior. Juntas, elaboramos um projeto cultural chamado “Gralha Canalha”, que visava reafirmar a cultura nordestina e se constituir em um espaço para a promoção da produção artístico-cultural do mundo universitário daquele tempo.

Terminamos o curso em 1986, eu a convidei para vir a Rondônia, Estado novo da federação, onde minha família buscava sobrevivência, depois de migrar do Nordeste. O que era uma visita se tornou uma vida. Em Porto Velho, da mesma forma de outrora, Fatinha também conquistou simpatias, fez amigos e amores. Mas nestas bancas, antes que eu esperasse, ela ancorou porto. Fez família e fez história. Uma história composta de alegrias e dores, vendavais e calmarias. Enfrentando obstáculos mil, tocou seu projeto de vida, sendo uma guerreira-lutadora, da primeira à última hora.

Profissional competente, Fátima Alves sempre buscou cumprir com seus deveres e imprimir ética à profissão. Como militante política, foi coerente e buscou sempre o consenso em vez do grito. Como mãe, doou-se ao extremo. Como amiga, se deu por inteiro.

Falar sobre Fátima Alves, hoje, só me é possível com o coração, que tomado de saudades e tristezas, não avista lugar para razões nem espaços para poesias. Assim, ainda incrédula diante de sua breve passagem sobre minha vida, esperarei o tempo seguir seu curso, para eu crer que ela se foi e que está entre os espíritos bons na outra dimensão. Só posso dizer que Fatinha merece minha eterna lembrança e respeito. Só sei que dói muito perdê-la. Com saudades e tristezas.

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